quinta-feira, 23 de julho de 2015

TEATRO ou TAETRO?


 Por Rogério Leandro

      Quando o ensaísta Fernando Peixoto, em sua lucidez aponta que antes de polemizar e tentar rotular a expressão teatral, tentando sistematizar e conceituar o que vem a ser teatro,  no intuito de não gerar conflito confessa que é melhor que chamemos TEATRO de TAETRO e encerremos a questão, para não desgastar o tema.
     Mas que função social tem o teatro? Num mundo em que lucratividade é palavra de ordem, que ganhamos ao fazer ou consumir teatro?

      Redundantemente, vamos começar pelo começo...

     Levanto um questionamento: Será que tudo tem que ter feedback produtivo? Será mesmo necessário? Não, não creio ser fundamental. O teatro esta nisso que é complexo conceituar mas,  fácil verificar, é prática emancipatória! Promove quem faz, quem vê, quem interage com ele. É ação terapêutica e principalmente leva ao questionamento, promovendo cidadania. Dizer tudo isso é redundante, repetitivo e quem já travou  contato com a prática teatral sabe o que estou dizendo. Mas quero destacar aqui alguns pontos que compreendem a temática do teatro. Vamos falar um pouco da difusão cênica, quando o princípio imitativo do homem se faz perceber...
Dioniso, deus do teatro grego
     Normalmente, ainda na infância, somos apresentados ao teatro na escola e este será quase sempre o primeiro referencial do produto artístico depois dos desenhos e garatujas feitas ainda na pré-escola. Mal começamos a socialização pela frequência escolar e o teatro já anda por ali, nos ensinando a lidar com  o espírito humano. Logo nas séries iniciais somos despertados a assumir outras posturas, conhecer "outras vidas", experimentar o "alheio" pelo jogo dramático.
     Fui forjado numa escola americana onde a prática teatral incorporava a grade curricular e todos ali sabiam de seu valor enquanto "misturador" de gente. E era assim. Naqueles tempos fui "rei"e fui mendigo, fui santo e fui "perdido", fui herói, mas fui vilão. Eram exatamente essas viagens personalíticas que nos faziam indagar sobre a natureza do homem e seus descaminhos, erros, acertos e dúvidas. Já naquele introito de vida, usávamos o teatro como ferramenta de investigação do espírito humano.
    Crescemos e a medida que mudávamos nosso meio, o  teatro assumia outras funções. Foi na adolescência elemento de reflexão sobre a sexualidade, discutindo o papel do desejo e a importância da dor, os aspectos do prazer e o porquê da indolência, do desafeto, da frivolidade, da frigidez.
      Na juventude surgem então os grandes temas:  Religiosidade, política, sociedade e homem. O teatro também estava lá, libertário, panfletário, profético. O teatro inclusive, quando associado a esta fase de vida do ser humano, produz resultados transformadores. Quem no Brasil, não se lembra dos jovens integrantes do TEATRO OPINIÃO e do ARENA nos anos de chumbo? Na Ditadura militar nos idos de '64 a '85? Do Newspaper de Augusto Boal? E então... O teatro quando chamado e associado aos lampejos da juventude ganha as ruas e atordoa os mais desavisados! Do silêncio questionador o teatro pode despertar ruidoso como um leão faminto.Mas a vida transcorre e os dias se sucedem...
     Logo os cabelos embranquecem e o teatro também está lá! Será a experiência do vivido e o teatro ganha também ares terapêuticos. Fonte de vivências, estado de reflexão perpetuado pelo fazer de conta, embalado pela questão do... Era uma vez! E o teatro adentra a sala do psicanalista, mas vai também as ruas.
     E assim está!
     Agora você me pergunta: E o teatro serve para quê? NÃO SEI!
     Só sei que ele é, e como disse o maestro da palavra Fernando Peixoto: Para encerrar qualquer possível discussão, o chamemos de TAETRO e encerremos a questão, até porque mesmo com as letras invertidas, vou lhes contar um segredo, seja sozinho ou em grupo, literário ou na improvisação, com recursos ou em plena rua, ainda assim o TAETRO estará lá, nos fazendo sonhar, refletir, discutir ou contestar... Porque ele é onipresente aonde homem houver, e assim o tem dito DIONISO o deus-bode grego, representante do teatro: Antes que o rotulemos, melhor é fazer...

      Depois a gente descobre para que serve!

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quarta-feira, 15 de julho de 2015

GEOGRAFIA TEATRAL: TRABALHANDO OS ESPAÇOS



     Quando iniciamos no teatro e chegamos a um palco pela primeira vez, além dos mais diversos aspectos a serem trabalhados, uma compreensão fundamental salta aos olhos, tamanha a importância: O reconhecimento da geografia teatral.
      Talvez um mais desavisado vestibulando possa estar se perguntando:
      - Até aqui esses conceitos me perseguirão?!
      Pois é amigo, até aqui...
      Na verdade o conceito primitivo de onde você se encontra e em relação ao entorno para onde segue ou não – temo em lhe dizer! – o acompanhará seja que atividade desempenhar e o teatro enquanto função, não será diferente, aliás, o informo que essa percepção e construção de conhecimentos na verdade, é fundamental para um bom desempenho da atividade.

      Um ator/atriz que não tiver esse senso de localização ficará batido em cena. Serei mais claro.

    Vamos tomar por base um palco tradicional, a Caixa Italiana, estruturada em retângulo sem proscênio adiantado, ou seja Elisabetano (aquele avanço muito utilizado como passarela no mundo da moda!). Mas veja, ainda que mudemos o espaço cênico, pensando arena ou qualquer outro (semi-arena, Isabelinos, etc.), ainda assim o sentido geográfico será prioritário, inclusive destacando que em algumas estruturas essa percepção pode vir a ter tamanha importância que o relacionaremos ao sentido de sucesso ou insucesso da encenação associado ao trabalho de ator. Mas voltemos a Caixa Italiana...
      Em antigos registros de encenadores europeus vamos encontrar referência aos chamados palco alto, palco baixo. Costuma-se fazer uma confusão danada com essas nomenclaturas, ora invertendo os sentidos, ora enroscando os conceitos...
     Palco alto corresponde ao frontal da área de apresentação o que os franceses chamavam de Avant’Scenne e nós brasileiros dizemos “boca de cena”, ante-cena ou proscênio. Tem caracter particular na encenação e muitas vezes serve para o solo de ator, pois indica força dramática, intimista e promove a pactuação da platéia com a personagem. O que ali é feito imprime grande representação. Ao encenador, este espaço tem a particularidade do cuidado simbólico, pois, só para dar exemplo, uma simples coçadinha de perna reforça a ação e se o ator/atriz ali mexer-se sem objetivação, pode e comprometerá a mensagem pretendida. O palco alto revela a necessidade de uma iluminação com especificidades próprias (normalmente canhões pares ou elipsoidais). Para o uso da maquiagem, já percebeu, pelo caracter intimista deve ser resguardado o detalhe e o colorismo.
     Já no palco baixo o valor atribuído é diferenciado. Ele compõe a caixa cênica com reforço de contexto ou desenho de cenarização. Podem ajudar a ilustrar o enredo objetivado. As ações ali desenvolvidas são genéricas e o plano pretendido não é intimista. Quando o ator em sua marca estabelece-se no plano baixo, pode estar assinalando repouso dramático – mas não sempre! – pois no aguardo do desenrolar da ação ele ali, estará resguardado. Os olhares a este será dirigido no instante seguinte na composição mais à frente da ação, ou seja, no palco alto. Se eu tenho dois atores/atrizes numa mesma sequência de ação em tempo-ritmo composto, mas em palcos distintos (no mesmo palco físico, mas em posicionamentos diferentes – alto e baixo) ambos integrarão a unidade dramática, mas se desenvolverão individualmente quanto ao ritmo da ação, logo perceberei que os olhares dos espectadores estarão dirigidos inicialmente ao palco alto, numa vigília de ação/reação e logo depois ao palco baixo (expectação).
     O palco baixo indica uma iluminação genérica sem especificidades próprias, servindo mais para aclimatação do ambiente pelo colorismo dos refletores (normalmente canhões ímpares, convexos, L30 ou luzes de efeitos – stroboscópicas, lasers, setlights, etc.)
     Por isso deve-se dar real atenção ao posicionamento dos atores no palco, só para começo de conversa, pois apenas suas posições já nos darão pistas do desenrolar da ação dramática.
     Outro aspecto diz respeito a divisão da caixa cênica em quadrantes. Isso é bem relativo a cada encenador, mas na prática normalmente para efeitos de iluminação básica a dividimos em seis partes (três para o palco baixo e três para o alto). Pergunta-se: Cada quadrante tem o mesmo valor cênico? NÃO!!!!!
Inclusive na iluminação o colorismo ganha contornos distintos.
      Tomando o palco da direita para esquerda de quem olha de frente, teremos os quadrantes de palco baixo ao fundo de 1 a 3 e pela frente no palco alto, de 4 a 6.
     Se considerarmos a movimentação dos atores em cada quadrante poderemos identificar alguns simbolismos. Vejamos:

     Ao girar para dentro da cena, estando no quadrante 1, para a direita coloca-se na ação, já para esquerda, exclui-se do contexto.
      Outra: Estando o ator/atriz do quadrante 5, ou seja, frente a ação no palco alto ao centro e girando para a esquerda, indica aguardo no conflito (pausa de intenção) já para a direita, amplia-se o movimento e intensifica a ação.
      Estes são só exemplos e existem mais, mas não devemos nos ater a isso como ao ler um esquema elétrico, quando a troca de um componente pode queimar o circuito. Esses indicativos são somente para demonstrar que a leitura geográfica do palco tem aspectos peculiares e deve ser observada, para obtenção de melhores efeitos dramáticos. Geografia de palco é muito interessante e deve ser estudada.
      Mas nunca nos esqueçamos que qualidade dramática é emocional, é vivência e catarse. Destes não há esquema que salve uma encenação, pois sem o trabalho de ator, não será mera movimentação que legará qualidade a um espetáculo. O ator é base peculiar ao ato cênico e somente em algumas linguagens estéticas pode ser substituído com algum sucesso, como no teatro de Bob Wilson e outros similares ou mesmo reforçado em plena ação, como no deus ex-máquina de Eurípedes no teatro grego. De mais... Viva Stanislawsky! – Tem gente que vai me chamar de anacrônico!!!

       Outra hora falaremos mais da geografia teatral. Estudemos, pois, filhinhos... E tenho dito!

Rogério Leandro

domingo, 12 de julho de 2015

QUANDO UM ATOR ATUA À TÔA?

Pense em algo difícil de responder...
Posso devolver o questionamento com outra indagação: Pode um ator atuar à tôa?
O poder do teatro é incomensurável!

     Se quisermos rapidamente justificar a primeira assertiva, podemos logo afirmar que atuar à tôa é atuar sem um propósito! Mas cuidado!!! Nem toda estética teatral nos cobra objetivos e às vezes, o propósito da encenação é exatamente não ancorar num propósito específico. Lembremos de Augusto Boal e seu teatro Newspaper. Ali, qualquer ator que prestabelecesse um objetivo, comprometeria toda encenação, pois se existiu e existe um ato construtivo no teatro, como dinâmica didática, o Teatro do Oprimido de Boal revela-se em si como tal. O objetivo ou objetivos da cena se construiam e reconstruiam frente à própria encenação. Cada ideia nascida desabrochava numa nova e assim por diante... Os objetivos bailam neste contexto pois sempre renasce da sua própria inconclusibilidade...     
     Ufa!
     Então..   .
     Quando atuaremos à tôa?

     Se expandirmos a expressão e pensarmos na palavra em toda sua essência, veremos que estar à tôa é permanecer descompromissado. Sem qualquer ligação efetiva com o objetivo da cena, estaria o ator atuando à tôa, pois seu estreitamento com os aspectos dramatúrgicos imprimiria um descompromisso... Mas ... Que pensar do Teatro Dialético de Bertolt Brecht?
Ali naquele cadinho, o ator ao distanciar-se da personagem, poderia em si estar, como dizer? "à tôa"!
     Mas há inconsistências, pois embora distante e criticando a personagem, na quebra do paradigma o ator estará ainda numa unidade dramática e portanto sofrendo influências dos objetivos dramatúrgicos. Portanto, não estará à tôa!
     Para resumir, depois de muito conjecturar e revisitar conceitos estéticos da cena teatral em Stanislawsky, Artaud, Grotowski, Buchner, Bob Wilson, Beckett e tantos mais, concluo que o ator só estará à tôa, quando não atuando, portanto, quando não estiver sendo...
     Neste estágio, estará vivendo a própria vida e não atuando... Mas...
Onde a vida cessa e começa a arte? Lá vamos nós de novo e na construção de um novo paradigma...