Quando iniciamos no teatro e chegamos a um palco pela
primeira vez, além dos mais diversos aspectos a serem trabalhados, uma
compreensão fundamental salta aos olhos, tamanha a importância: O
reconhecimento da geografia teatral.
Talvez um mais desavisado vestibulando possa estar se
perguntando:
- Até aqui esses conceitos me perseguirão?!
Pois é amigo, até aqui...
Na verdade o conceito primitivo de onde você se encontra e
em relação ao entorno para onde segue ou não – temo em lhe dizer! – o acompanhará seja que atividade desempenhar e
o teatro enquanto função, não será diferente, aliás, o informo que essa
percepção e construção de conhecimentos na verdade, é fundamental para um bom
desempenho da atividade.
Um ator/atriz que não tiver esse senso de localização ficará
batido em cena. Serei mais claro.
Vamos tomar por base um palco tradicional, a Caixa Italiana, estruturada em retângulo
sem proscênio adiantado, ou seja Elisabetano (aquele avanço muito utilizado
como passarela no mundo da moda!). Mas veja, ainda que mudemos o espaço cênico,
pensando arena ou qualquer outro (semi-arena, Isabelinos, etc.), ainda assim o
sentido geográfico será prioritário, inclusive destacando que em algumas
estruturas essa percepção pode vir a ter tamanha importância que o
relacionaremos ao sentido de sucesso ou insucesso da encenação associado ao
trabalho de ator. Mas voltemos a Caixa Italiana...
Em antigos registros de encenadores europeus vamos encontrar
referência aos chamados palco alto, palco baixo. Costuma-se fazer uma confusão
danada com essas nomenclaturas, ora invertendo os sentidos, ora enroscando os
conceitos...
Palco alto corresponde
ao frontal da área de apresentação o que os franceses chamavam de Avant’Scenne e nós brasileiros dizemos
“boca de cena”, ante-cena ou proscênio. Tem caracter particular na encenação e
muitas vezes serve para o solo de ator, pois indica força dramática, intimista
e promove a pactuação da platéia com a personagem. O que ali é feito imprime
grande representação. Ao encenador, este espaço tem a particularidade do
cuidado simbólico, pois, só para dar exemplo, uma simples coçadinha de perna
reforça a ação e se o ator/atriz ali mexer-se sem objetivação, pode e
comprometerá a mensagem pretendida. O palco alto revela a necessidade de uma
iluminação com especificidades próprias (normalmente canhões pares ou
elipsoidais). Para o uso da maquiagem, já percebeu, pelo caracter intimista
deve ser resguardado o detalhe e o colorismo.
Já no palco baixo o
valor atribuído é diferenciado. Ele compõe a caixa cênica com reforço de
contexto ou desenho de cenarização. Podem ajudar a ilustrar o enredo
objetivado. As ações ali desenvolvidas são genéricas e o plano pretendido não é
intimista. Quando o ator em sua marca estabelece-se no plano baixo, pode estar
assinalando repouso dramático – mas não sempre! – pois no aguardo do desenrolar
da ação ele ali, estará resguardado. Os olhares a este será dirigido no
instante seguinte na composição mais à frente da ação, ou seja, no palco alto. Se eu tenho dois atores/atrizes
numa mesma sequência de ação em tempo-ritmo composto, mas em palcos distintos
(no mesmo palco físico, mas em posicionamentos diferentes – alto e baixo) ambos
integrarão a unidade dramática, mas se desenvolverão individualmente quanto ao
ritmo da ação, logo perceberei que os olhares dos espectadores estarão
dirigidos inicialmente ao palco alto, numa vigília de ação/reação e logo depois
ao palco baixo (expectação).
O palco baixo
indica uma iluminação genérica sem especificidades próprias, servindo mais para
aclimatação do ambiente pelo colorismo dos refletores (normalmente canhões
ímpares, convexos, L30 ou luzes de efeitos – stroboscópicas, lasers, setlights,
etc.)
Por isso deve-se dar real atenção ao posicionamento dos
atores no palco, só para começo de conversa, pois apenas suas posições já nos darão
pistas do desenrolar da ação dramática.
Outro aspecto diz respeito a divisão da caixa cênica em
quadrantes. Isso é bem relativo a cada encenador, mas na prática normalmente
para efeitos de iluminação básica a dividimos em seis partes (três para o palco
baixo e três para o alto). Pergunta-se: Cada quadrante tem o mesmo valor
cênico? NÃO!!!!!
Inclusive na iluminação o colorismo ganha contornos
distintos.
Tomando o palco da direita para esquerda de quem olha de
frente, teremos os quadrantes de palco baixo ao fundo de 1 a 3 e pela frente no
palco alto, de 4 a 6.
Se considerarmos a movimentação dos atores em cada quadrante
poderemos identificar alguns simbolismos. Vejamos:
Ao girar para dentro da cena, estando no quadrante 1, para a
direita coloca-se na ação, já para esquerda, exclui-se do contexto.
Outra: Estando o ator/atriz do quadrante 5, ou seja, frente
a ação no palco alto ao centro e girando para a esquerda, indica aguardo no conflito (pausa de intenção)
já para a direita, amplia-se o movimento e intensifica a ação.
Estes são só exemplos e existem mais, mas não devemos nos
ater a isso como ao ler um esquema elétrico, quando a troca de um componente
pode queimar o circuito. Esses indicativos são somente para demonstrar que a
leitura geográfica do palco tem aspectos peculiares e deve ser observada, para
obtenção de melhores efeitos dramáticos. Geografia de palco é muito
interessante e deve ser estudada.
Mas nunca nos esqueçamos que qualidade dramática é
emocional, é vivência e catarse. Destes não há esquema que salve uma encenação,
pois sem o trabalho de ator, não será mera movimentação que legará qualidade a um
espetáculo. O ator é base peculiar ao ato cênico e somente em algumas
linguagens estéticas pode ser substituído com algum sucesso, como no teatro de
Bob Wilson e outros similares ou mesmo reforçado em plena ação, como no deus ex-máquina de Eurípedes no teatro
grego. De mais... Viva Stanislawsky!
– Tem gente que vai me chamar de
anacrônico!!!
Outra hora falaremos mais da geografia teatral. Estudemos,
pois, filhinhos... E tenho dito!
Rogério Leandro
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