domingo, 12 de julho de 2015

QUANDO UM ATOR ATUA À TÔA?

Pense em algo difícil de responder...
Posso devolver o questionamento com outra indagação: Pode um ator atuar à tôa?
O poder do teatro é incomensurável!

     Se quisermos rapidamente justificar a primeira assertiva, podemos logo afirmar que atuar à tôa é atuar sem um propósito! Mas cuidado!!! Nem toda estética teatral nos cobra objetivos e às vezes, o propósito da encenação é exatamente não ancorar num propósito específico. Lembremos de Augusto Boal e seu teatro Newspaper. Ali, qualquer ator que prestabelecesse um objetivo, comprometeria toda encenação, pois se existiu e existe um ato construtivo no teatro, como dinâmica didática, o Teatro do Oprimido de Boal revela-se em si como tal. O objetivo ou objetivos da cena se construiam e reconstruiam frente à própria encenação. Cada ideia nascida desabrochava numa nova e assim por diante... Os objetivos bailam neste contexto pois sempre renasce da sua própria inconclusibilidade...     
     Ufa!
     Então..   .
     Quando atuaremos à tôa?

     Se expandirmos a expressão e pensarmos na palavra em toda sua essência, veremos que estar à tôa é permanecer descompromissado. Sem qualquer ligação efetiva com o objetivo da cena, estaria o ator atuando à tôa, pois seu estreitamento com os aspectos dramatúrgicos imprimiria um descompromisso... Mas ... Que pensar do Teatro Dialético de Bertolt Brecht?
Ali naquele cadinho, o ator ao distanciar-se da personagem, poderia em si estar, como dizer? "à tôa"!
     Mas há inconsistências, pois embora distante e criticando a personagem, na quebra do paradigma o ator estará ainda numa unidade dramática e portanto sofrendo influências dos objetivos dramatúrgicos. Portanto, não estará à tôa!
     Para resumir, depois de muito conjecturar e revisitar conceitos estéticos da cena teatral em Stanislawsky, Artaud, Grotowski, Buchner, Bob Wilson, Beckett e tantos mais, concluo que o ator só estará à tôa, quando não atuando, portanto, quando não estiver sendo...
     Neste estágio, estará vivendo a própria vida e não atuando... Mas...
Onde a vida cessa e começa a arte? Lá vamos nós de novo e na construção de um novo paradigma...

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